Apresenta




SINOPSE


Daniel, um motorista de taxi que trabalha de madrugada para pagar as prestações do Fusca, é casado com Adalgisa e tem um filho, Joaquim. Preparada para ser apenas uma dona de casa, Adalgisa, uma bela mulher, por acaso começa a fazer cinema. Ela abandona a família e é proibida por Daniel de ver Joaquim. Durante 11 anos, Daniel se martiriza e nutre um sentimento de vingança, que ganha força quando Joaquim, já adulto, reencontra a mãe, em plena decadência profissional.
Daniel passa a se apresentar à polícia assumindo crimes que não cometeu, um plano bem arquitetado para que ele pudesse cometer um crime perfeito, matar sem ser considerado culpado. Mas no final, aquele homem que parecia ter controle sobre a vida, as emoções e seus planos tem um revés: percebe que tudo escapou entre seus dedos.

ELENCO
Christiane Torloni       Adalgisa
José Mayer       Daniel
Walter Quiroz       Quim
Cláudio Marzo       Delegado
Betty Faria       Odete Vargas
José Lewgoy       Ody Marques
Raul Gazolla       César Lamas



FICHA TÉCNICA
Direção e Roteiro  Guilherme de Almeida Prado
Fotografia  Cláudio Portioli
Montagem  Danilo Tadeu
Direção de arte e figurino  Luís Fernando Pereira
Cenografia  Luís Rossi
Direção de produção  Sara Silveira
Produção executiva  Assunção Hernandes
Produção  Star Filmes / RAIZ
Música  Hermelino Neder
Ano de produção  1992
Tempo de duração  118 minutos




"O PERFUME DA MINHA GARDÊNIA"


(texto escrito para o "press-release" de lançamento de "Perfume de Gardênia" em abril de 1995)

Fazer este filme é um dos projetos mais antigos de que eu me lembro. Comecei a desenvolver o argumento nos anos 70 pensando em contar a estória de uma estrela do Cinema Novo; uma mistura de Norma Benguel com Leila Diniz. Depois esqueci a sinopse numa gaveta até que, no início dos anos 80, um produtor da Boca do Lixo me pediu uma estória para filmar com Helena Ramos. Então transferi o argumento para uma estrela de pornochanchada, mas mesmo assim o projeto continuou abandonado numa gaveta.

Em 89, eu e mais cinco colegas cineastas formamos uma empresa chamada "Casa de Imagens". Nós estávamos descontentes com o rumo que o cinema brasileiro estava tomando naquele momento: com o fim abrupto das pornochanchadas, havia deixado de existir um gênero popular brasileiro e a grande maioria dos cineastas estavam preferindo buscar o caminho aparentemente mais fácil das co-produções internacionais milionárias e abandonando totalmente o público e o mercado brasileiro. Nós seis nos propúnhamos a rediscutir, em seis filmes de longa-metragem, diferentes possibilidades de uma dramaturgia cinematográfica brasileira voltada para uma platéia de brasileiros e com orçamentos compatíveis com o mercado nacional. Juntos desenvolvemos dezoito estórias, três de cada um. Das estórias que eu apresentei apenas uma era nova e era aquela em que eu mais acreditava. Chamava-se "Cine Brasil" e era uma espécie de paródia de "O Baile" de Ettore Scola, contando a estória dos banheiros masculino e feminino de um cinema, desde os tempos do cinema mudo até a sua transformação em uma "igreja de Deus". Uma proposta de estudar a influência do cinema no cotidiano das pessoas que eu aproveitei em parte no roteiro final de "Perfume de Gardênia". As outras duas estórias eu tirei da gaveta apenas para completar a minha cota de três. Mas, para meu espanto, todos meus colegas foram unânimes em afirmar que eu deveria desenvolver a estória de "Perfume de Gardênia", que naquela época se chamava "O Menino que Gritava Lobo!". E assim eu escrevi o roteiro que acabou sendo o único dos seis projetos a ser filmado. Cada um dos projetos desenvolvidos pela "Casa de Imagens" procurava analisar a realidade brasileira dentro de um prisma diferente. Dentro deste projeto de pesquisa, meu projeto era o que procurava unir duas tendências fortes da dramaturgia popular brasileira: de um lado as telenovelas, numa leitura mais concisa e psicológica e, do outro, o teatro brasileiro, mais especificamente os exemplos populares de Nelson Rodrigues, Plínio Marcos e Jorge Andrade.

Como nos meus outros filmes, a base da estrutura dramática eu procuro retirar da dramaturgia dos sonhos. Eu acredito que esse parentesco que os filmes tem com nossos sonhos noturnos tem grande importância no sucesso que a linguagem cinematográfica tem tido no nosso século. E acredito que a tendência desse parentesco é se estreitar e caminhar para um cinema mais livre das estruturas convencionais que herdamos do teatro e da literatura. No caso desse filme eu trabalhei mais próximo da estrutura dos pesadelos. Um pouco disso se deveu à própria situação em que o filme foi realizado, logo após o desmanche do cinema brasileiro perpetrado pelo governo Collor. A proposta sempre foi fazer um filme que incomodasse um pouco o espectador em sua cadeira, mas a idéia original era fazer o filme com um tratamento mais irônico e menos negativo da realidade; só que o clima sombrio e pessimista desse período acabou se refletindo no clima um pouco soturno que eu dei ao filme.

Por outro lado, esse filme resultou de uma mudança muito grande de minha postura em relação ao cinema. Eu sempre fui um cinéfilo e esse meu hábito de ir ao cinema todos os dias, com o tempo, acabou se transformando em uma obsessão. De repente eu percebi que já não ia mais ao cinema por prazer, mas por obrigação. Eu fazia questão de assistir a todos os filmes. Isso fazia com que eu achasse os filmes cada vez mais aborrecidos, longos e repetitivos. Na realidade, eu é que havia perdido a capacidade de sentir prazer vendo um filme. Isso acontecia particularmente com os filmes brasileiros que, até por influências culturais e históricas, tem uma linguagem mais analítica e reflexiva e, do ponto de vista de quem está com pressa, muito mais chata. Eu considerava todos filmes brasileiros tediosos e inúteis. Nem meus próprios filmes escapavam desses adjetivos e foi isso que me chamou a atenção de que alguma coisa estava errada comigo mesmo. Meu reencontro com o prazer de sentar duas horas despreocupado na cadeira de uma sala escura e me deixar levar por imagens, sons, alegrias, aflições, mundos e idéias, também representou a minha redescoberta do cinema brasileiro e de suas possibilidades e desafios criativos únicos e originais. Busquei encontrar as origens desse prazer nos filmes que tinham marcado a minha formação cinematográfica, filmes como "O Bandido da Luz Vermelha" de Rogério Sganzerla, "O Capitão Bandeira Contra o Doutor Moura Brasil" de Antônio Calmon, "O Grande Momento" de Roberto Santos, "São Paulo S.A." de Luiz Sérgio Person, "Noite Vazia" de Walter Hugo Khoury, "Memórias de Um Estrangulador de Loiras" de Júlio Bressane, "Amor Palavra Prostituta" de Carlos Reichenbach, "Fome de Amor" de Nelson Pereira dos Santos e, evidentemente, as pornochanchadas de Ody Fraga e da Boca do Lixo, onde comecei minha carreira profissional. Mais uma vez, um pouco como um vampiro de cinemateca, montei a minha estória pelas diversas trilhas do cinema brasileiro nesses seus quase cem anos.


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