Apresenta

A estória de um homem que acredita poder mudar a realidade mudando a luz que incide sobre ela.


ELENCO
Júlia Lemmertz       Lúcia
Raul Gazolla       Tito
Maitê Proença       Susana/Lyla
José Lewgoy       Hilário, Max e Diretor
Paulo Souza       César Mássimo
John Herbert       Jorge
David Cardoso       Bandeira
Tânia Alves       Lilia Cantarelli
Patricia Travassos       Josefa
Imara Reis       Angelita Alves
Walter Breda       Marques


FICHA TÉCNICA
Diretor/Roteirista  Guilherme de Almeida Prado
Produtora Executiva  Sara Silveira
Produtora de Elenco  Vivian Golombek
Fotografia  J.B. Crèpon
Música  Hermelino Neder
Som Direto  Licio Marcos de Oliveira
Diretor de Arte  Luís Rossi
Cenografia  Leo Soares
Figurinos  Andréa Velloso
Ano de Produção  1998
Tempo de Duração  103 minutos



A HORA MÁGICA - uma introdução


"A luz é a substância do filme e é
porque a luz é, no cinema, ideologia,
sentimento, cor, tom, profundidade,
atmosfera, narrativa. A luz é aquilo
que acrescenta, reduz, exalta, torna
crível e aceitável o fantástico, o
sonho ou, ao contrário, torna
fantástico o real, transforma em
miragem a rotina, acrescenta
transparência, sugere tensão,
vibrações. A luz esvazia um rosto ou
lhe dá brilho... A luz é o primeiro
dos efeitos especiais, considerados
como trucagem, como artifício, como
encantamento, laboratório de
alquimia, máquina do maravilhoso.
A luz é o sal alucinatório que,
queimando, destaca as visões..."

Federico Fellini


A matéria-prima dos meus filmes é luz, sons e sonhos. Com esses materiais desenvolvi o projeto de "A Hora Mágica".

O que é "hora mágica"?

Existe um momento do dia, logo após o pôr-do-sol, em que a luz solar ainda não desapareceu de todo e o negativo cinematográfico ainda tem sensibilidade suficiente para captar as imagens; e que é usado para filmar de dia, com luz natural, criando um efeito noturno. Esse momento muito curto do dia é chamado em cinema pelo apelido técnico de "hora mágica" e é a magia desse instante misterioso e fugaz que esse filme pretende exprimir através de uma estória que pesquisa os limites da imaginação e da realidade, da verdade e da ilusão.

O cinema é feito de imagens e de sons e é da interação e contrastes desses dois sentidos humanos (ver e ouvir) que nasce a linguagem e a arte cinematográfica.

Para analisar a linguagem cinematográfica, eu proponho uma viagem no tempo. Em 1950 foi inaugurada a primeira Estação de Televisão no Brasil. Até então era o Rádio que unia e fazia voar a imaginação do povo brasileiro, através de seus programas de auditório e radionovelas que faziam uso unicamente de sons. É nesse momento de transformação de um universo sonoro para um universo audiovisual que se situa minha estória.

O ano de 1950 representa também o meio do século XX e o momento em que a "arte do século XX", o Cinema, dá lugar a uma nova arte, nascida como uma mistura de Cinema e Rádio: A Televisão. As relações entre estas três artes é o que o filme procura discutir, de uma maneira simbólica e sutil, tentando mostrar tanto as qualidades, quanto as falhas dos três tipos de comunicação. Na estória também se relacionam dois tipos de visão do mundo, representados por Tito (o romântico) e por Lúcia (o realista). Livremente inspirado em um conto (CAMBIO DE LUCES) de Júlio Cortázar, o filme tem sua ação centrada numa Emissora de Rádio que começa sua transformação para ser também uma Emissora de Televisão.

Na última seqüência de meu filme "A Dama do Cine Shanghai", o personagem Lucas, interpretado por Antônio Fagundes, sai do cinema e vemos que o filme que está sendo anunciado "a seguir" chama-se: "A Hora Mágica". Não se trata apenas de uma brincadeira, mas ambos os filmes foram idealizados como uma dupla; uma espécie de "programa duplo" como os que existiam no passado. Aqui, a idéia é rediscutir o que foi discutido no outro, completando o raciocínio. Não se trata de uma continuação, pois a ordem em que eles podem ser assistidos não é necessariamente a mesma em que foram filmados.

Embora irmãos, ambos os filmes são independentes. Essa relação entre os dois funciona dentro da nova tendência do cinema moderno de propor as idéias através de um raciocínio associativo, diferente do sistema alienante que ainda domina o cinema mundial (no cinema americano desprezando o público como um ser pensante e no cinema europeu entendendo o espectador como alguém que deve ser "catequizado") e que procura impor as idéias aos espectadores através de uma linguagem onde não existe muito espaço para a dialética. No sistema associativo, é o próprio espectador que, de posse das informações, constrói sua própria estória e aplica sua própria moral.

Tito Balcárcel, o "herói" de "A Hora Mágica", é um personagem que acredita que pode mudar a realidade mudando a luz que incide sobre ela; numa metáfora da relatividade do real quando aplicado ao cinema. Foi essa relação entre o mundo real e o mundo criado em celulóide pelo cinema o que primeiro me interessou no conto de Cortázar e que me fez desenvolver as idéias que anteriormente apliquei em "A Dama do Cine Shanghai" e que, em "A Hora Mágica", procuro dar forma final.

A outra metáfora do filme é a repetição infinita do nosso cotidiano através dos tempos em busca da perfeição (no cinema representado pelos "clichês" cinematográficos) e essa idéia é introduzida pelo personagem Tito Balcárcel em sua fala inicial e representada pelos "anéis de dublagem" que Tito dubla para César Mássimo (protótipo de galã de cinema) e que, na estrutura do filme, funcionam como passagens de tempo.

Como nos meus filmes anteriores, trabalho na fronteira da comédia, sugerindo o cômico com extrema sutileza, sem buscar o riso fácil, mas o sorriso revelador. A estória vai sendo construída a partir de pequenas ações cotidianas que vão se somando e provocando uma estranheza e um suspense indefinível no espectador, com a idéia de chamá-lo a buscar suas próprias conclusões e lições.

Mas o que toda essa teoria tem a ver com o público brasileiro de 1998?

Nenhum país do mundo teve em sua formação política atual tanta influência da televisão quanto o Brasil. Quando na década de 60 o governo militar criou o projeto de telecomunicações, investindo milhões de dólares na criação de satélites de comunicação, com isso possibilitando a criação de gigantescas redes de televisão dentro daquele que talvez tenha sido o mais bem sucedido projeto estratégico brasileiro, o de unir a população brasileira "do Oipoque ao Chuí", certamente não imaginava a influência cultural que criaria em todo o país. Até hoje esse espaço que a televisão tem no imaginário brasileiro não foi devidamente analisado, mas sem dúvida essa influência não pode ser esquecida quando se pensa em desenvolver uma dramaturgia cinematográfica que represente e reflita o pensamento do povo brasileiro.

Ao escolher o momento histórico da própria fundação da Televisão no Brasil e através da relação romântico/realista dos dois personagens, eu procuro fazer com que o próprio espectador do filme decida o que ganhamos e o que perdemos com essa nova conquista; discutindo o próprio papel que tem a televisão no imaginário de nossas vidas brasileiras. Não se trata de condenar a televisão, mas de analisar, através da linguagem do Cinema, os valores de duas diferentes linguagens de comunicação de massas: o Rádio e a Televisão.

Além dessas questões temáticas, o filme procura desenvolver uma outra questão estética, que tem sido objeto de análise e pesquisa em todos meus outros filmes: o Som.

Não resta dúvida que, do ponto de vista das imagens, o cinema tem conseguido conquistas fantásticas no mundo todo. No entanto, as possibilidades dramáticas e sugestivas do som tem sido menosprezadas pela grande maioria dos filmes. E não estou me referindo apenas ao cinema brasileiro com sua mitológica má qualidade sonora. No mundo todo o cinema não tem utilizado as potencialidades do som, que vinham sendo muito bem desenvolvidas nas Rádios, principalmente nas radionovelas (antes de serem substituídas pelas telenovelas), e o espectador ainda é tratado como se fosse surdo no sentido intelectual da palavra; não sendo capaz de compreender e decifrar mensagens sonoras, além do significado dos diálogos e do envolvimento musical.

Enquanto em "A Dama do Cine Shanghai" trabalhei com a estética do cinema "noir" americano e francês, neste "A Hora Mágica" pretendo trabalhar com a estética do cinema mudo, dos Irmãos Lumiére até o "Limite" de Mário Peixoto. Essa idéia de contrapor os sons do rádio e as imagens do cinema mudo busca ressaltar as diferentes possibilidades, das imagens e dos sons, de catalisar a imaginação e propor idéias aos espectadores.

A idéia de trabalhar com a estética do cinema mudo nasce também de uma questão audiovisual crucial para o futuro do cinema. A overdose de imagens que invadiu nossos olhos nestes mais de cem anos de história do cinema e televisão nos tornou imunes à força persuasiva que as imagens podiam nos produzir. Cabe ao cineasta de olhos cansados o desafio de reencontrar a magia que assombra alguém que vê uma imagem em movimento pela primeira vez. Só essa magia será capaz de permitir outros cem anos para o cinema.

Sons e Imagens, Presente e Passado são a matéria do cinema e a matéria dos sonhos. É sempre difícil para mim tentar justificar em palavras o que me faz ficar interessado por um projeto. Mais ainda um projeto como esse, que já venho desenvolvendo por quinze anos.

Esses motivos que procurei expor tiveram peso importante, ao lado do prazer de contar uma boa estória, usando tudo aquilo que permite a linguagem cinematográfica; tentando reinventar, sugerir, surpreender e instigar o espectador.

O resto é cinema.

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